CAMINHOS PARA A INVESTIGAÇÃO JORNALÍSTICA

José A. Argolo*

 

> Passos para que a análise investigativa seja feita da melhor forma, desde o tratamento com as fontes até a maneira correta de evitar riscos e interferências na investigação do fato.

 

Três palavras de início observadas isoladamente:

· Céptico (cético) cf. Aurélio: Adjetivo. Do grego skeptikós, pelo latim sceptico. Pessoa que duvida de tudo, descrente (e que, exa­tamente por isso, deve dirimir dúvidas, buscar a verdade – n. do A.).

· Investigação. Do latim investigatione (cf. Aurélio. Ato ou efeito de investigar, busca ou pesquisa).

· Repórter. Profissional de Imprensa responsável pela apu­ra­ção e redação dos fatos noticiosos.

Tentemos aproximá-las.

A primeira delas enfeixa algo mais do que um simples concei­to filosófico. Afinal, o bom jornalista precisa ser, antes de tu­do, um cético. Nada, nenhuma frase pinçada ao acaso du­rante a in­for­malidade de um jantar ou, hipótese contrária, con­fe­rência de cú­pula; nem mesmo um documento ocasionalmente “esquecido” na ante-sala do gabinete do deputado Z***, líder da bancada gover­nista no Congresso Nacional, ou no luxuoso es­cri­tório do Sr. K***, executivo senior de uma poderosa mul­tinacional do setor químico-farmacêutico, deve ser interpretado (e ime­diatamente repassado à Opinião Pública), como chave pa­ra a solução de um enigma.

Nada pode ser considerado definitivo até que todas as peças que com­põem a engrenagem da notícia estejam ajustadas e livres das ares­tas proporcionadas pela contra-informação.

Precauções. Palavras “soltas no ar”, memorandos impressos em papel tim­­brado mas sem, no entanto, apresentar a identificação do sig­na­tário, fotografias mostrando imagens desfocadas de locais ou pes­soas (impos­sibilitando o reconhecimento), telefonemas anô­nimos subi­tamente desligados após uma ou duas frases pro­nun­ciadas em tom soturno… O jornalista que não tiver a indis­pensável tarimba poderá ser induzido a erros grosseiros, prin­ci­palmente em se tratando de questões ultra-sensíveis – como as de natu­reza política, econômica ou militar (sempre palpitantes na vida dos Estados Nacionais).

Não faz muito tempo o veterano Peter Arnett (talvez o mais ex­pe­riente dos correspondentes de guerra em atividade) ficou em si­tuação delicada ao noticiar – fundamentado em fontes de “al­­ta confiabilidade” – que o Governo norte-americano teria au­to­ri­zado a utilização, durante o conflito do Vietnam, de uma ar­ma química (o gás letal Sarin, que ataca o sistema nervoso), con­tra desertores do exército que tentavam refugiar-se no Laos.

O vale da morte”. Foi este o título da reportagem elaborada por Peter Arnett e levada ao ar no dia 7 de junho (1998) por in­ter­­médio da rede CNN e, uma semana depois – redigida em par­ceria com a produtora April Oliver –, publicada na revista Time (duas empresas pertencentes ao grupo Time Warner Inc).

Em conseqüência, os produtores April Oliver e Jack Smith fo­ram demitidos e Peter Arnett num primeiro instante seve­ra­mente advertido. Como re­for­ço às justificativas de natureza ética, o presidente da CNN, Tom Johnson, teve que admitir – por intermédio de comunicado re­trans­mitido várias vezes pela rede noticiosa de televisão:

Reconhecemos falhas graves na utilização de fontes que for­neceram os informes originais e, portanto, nos retratamos em rela­ção à matéria1 .

Tais falhas, conforme o extenso noticiário difundido nos EUA e retransmitido para todo o mundo, foram detectadas pelo advo­gado Floyd Adams, contratado pela CNN para esclarecer o epi­sódio, uma vez que o Pentágono rotulou a reportagem de men­ti­rosa. Após examinar as anotações dos repórteres, con­versar com fontes do Departamento de Defesa e da própria Im­­prensa, o advogado concluiu que, embora os dados dispo­níveis fossem insuficientes para comprovar a denúncia, os au­tores não agiram de má-fé.

De todo modo, nesses tempos de segredos históricos repen­tinamente vazados e de tremendas disputas internacionais as­sociadas ao domínio do know how tecnológico, as reportagens in­vestigativas estimulam a vendagem dos jornais e contribuem pa­ra reforçar a trajetória desse ou daquele profissional, fazendo com que se transforme num ícone do jornalismo. Fica, porém, bas­tante claro que todo o cuidado é pouco em se tratando de fontes e do­cumentos.

Formação

O gosto (e a aptidão!) pelo jornalismo investigativo infeliz­mente não se estende a todos os profissionais que labutam no dia-a-dia das redações. Até porque esta opção se sobrepõe, em larga escala, ao “modelito” light adotado em alguns diários: na­da de investimento na elaboração de notícias mais trabalhosas, e­ven­tualmente comprometedoras ou custosas em termos opera­cionais. Se há exceções, pensam os executivos dessas empresa, que sejam originárias das agências internacionais.

Jornalismo, como se sabe, é sinônimo de habilidade (domí­nio técnico sobre o texto e conhecimento quase ilimi­tado no que diz respeito ao campo de atuação), recursos finan­cei­ros e tecnológicos2 e, muito especialmente, rapidez no pro­ces­so de difusão.

A primeira dessas condições é personalíssima. Não se trans­mite por osmose e depende de cada um3. Quanto aos recursos (in­cluindo o instrumental técnico), resultam do interesse e da dis­­­po­nibilidade de caixa das corporações jornalísticas (laptops, palmtops, câmeras fotográficas digitais equipadas com lentes ultra­sensíveis, ilhas de edição, handicams, passagens aéreas, aluguel de lan­chas rápidas e helicópteros custam muito dinheiro); a rapi­dez decorrerá, preferencialmente (embora nem sempre), do so­ma­­tório das características acima.

É do conhecimento geral que duas classes de repórteres con­vivem nas redações: os pés-de-boi (is­to é, os indivíduos capazes de registrar apenas correta e media­namente os assuntos para os quais foram pautados) e, minorita­riamente, os especiais.

Estes últimos são assim conceituados porque conseguem as­similar com fina precisão o colorido e intensidade dos aconte­cimentos e produzem aquele algo mais que os leitores/telespec­tadores tanto apreciam: esmeram-se na elaboração do texto, a­pre­sentam os fatos com ampla riqueza de detalhes, estendem-se às interpretações de natureza histórica, política, comportamen­tal etc.

Independentemente disso, no plano individual, investem – com ou sem a ajuda econômica dos diários ou emissoras – no au­­to­apri­moramento: freqüentam cursos interessantes aprendem i­di­omas, praticam regularmente o exercício da leitura (hábito es­te lamentavelmente não muito comum nas novas gerações), via­jam sempre que possível (e às próprias expensas!), aprovei­tando tais oportunidades para elaborar boas reportagens. Todo esse esforço, além da sólida cultura geral acumulada, am­plia o sentido da observação.

Memória afinada

Requisito fundamental ao profissional de Imprensa que pre­ten­de enveredar nos caminhos da investigação jornalística cha­ma-se memória fotográfica. Senão vejamos: enquanto poucos in­divíduos são capazes de reproduzir – com uma simples e rápida lei­­tura – a ínte­gra de um bilhete escrito à mão ou trecho impor­tan­te de um documento, os demais precisam desenvolver es­sa técnica lenta e gradualmente (à semelhança de um jovem a­tor ao estudar um texto longo e difícil). Neste caso a experiência constitui fator determi­nante para o coroamento dos resultados pre­tendidos.

Essa memória estende-se, também, às imagens ditas se­qüenciais e fotografias. A identificação de uma pessoa inte­res­sante com quem cruzou casualmente na rua ou viu num res­taurante; o rosto de um traficante procurado pela Polícia ou de um poderoso atacadista do setor de armamentos; o perfil incon­fundível seja de um ator famoso seja de um parlamentar em e-vi­dência por causa de uma disputa política; o olhar duro de um mi­litar respeitado por seu profissionalismo (as hipóteses são i­númeras)…, pode representar furo jornalístico.

Com um pouco de treino esse mesmo repórter poderá lem­brar-se de como tomou conhecimento sobre aquela pessoa e – guardadas as dificuldades próprias de cada situação – religar os fatos e estabelecer conexões com o tempo presente.

Arquivo

O profissional de imprensa que pretenda se destacar no cam­po da investigação jornalística deve dispor (preferencialmente na sua casa ou escritório) de um arquivo atualizado sobre fatos/per­­so­nagens que tenham a ver com a sua área de atuação. A or­gani­zação do acervo integrado por documentos, recortes e foto­grafias relativas ao Brasil e exterior (con­tidos em um ou dois armários de metal, em local com re­frigeração), não exige necessariamente a adoção de normas aca­dêmicas de catalo­gação. A classificação pode ser feita segundo cri­térios pessoais. Por exemplo: índices onomás­tico ou cronoló­gico, relação temática etc, em linguagem aberta ou codifi­cada, no caso dos arquivos confidenciais). O bom senso regulará a fre­qüência da abertura das pastas e dossiês.

Disso resulta que o jornalista precisa investir todos os dias na compra e leitura dos jornais e revistas mais importantes e, na me­dida das suas disponibilidades, deve acumular um razoável quan­titativo de imagens cinevideogravadas – o que fica ainda mais fácil se tiver acesso a um ou mais canais de TV por assi­natura. Por sua vez a Internet proporciona inúmeras vantagens. Ho­je é possível consultar em poucas horas dezenas de sites sobre os mais variados – e inusitados – assuntos, a um custo operacional redu­zidíssimo.

Todos esses recursos provenientes das novas tecnologias não im­pe­dem a checagem in loco, mas agilizam a coleta e organização dos dados antes mesmo de uma viagem indispensável ou en­trevista com pessoa difícil ou arredia.

Acrescente-se que, mesmo entre os cardeais do Jornalismo, a me­mória costuma pregar peças. Lapsos acontecem a todo ins­tante e não há como corrigi-los senão com a ajuda do noticiário pu­bli­cado e – se for o caso – com base nos textos elaborados pe­­lo próprio entrevistado. Na maioria das vezes um detalhe apa­ren­­­­temente simples remete a outra referência importante.

Instrumental

A utilização de quaisquer equipamentos além dos tradi­cionais caneta, lápis e o caderno de apontamentos (se desco­bertos), pode complicar a vida dos repórteres.

Como se sabe, a quase totalidade desses instrumentos (mini­gravadores, microfones de lapela, minicâmeras de televisão e foto­­gráficas, lentes e filmes especiais etc) foi criada para facilitar o traba­lho da Inteligência Militar e dos demais serviços de infor-mações. A gigantesca impulsão tecnológica observada neste fi­­­­nal­ de milênio levou os cientistas dos laboratórios indepen­dentes ou asso­ciados às corporações armadas a produzirem in­ven­ções ainda mais interessantes, razão pela qual muitos desses brin­quedos passa­ram a ser comercializados livremente (de início a preços ele­vados).

Em muitas situações os repórteres enfrentam dificuldades pa­ra comprovar as denúncias recebidas. A utilização desses equi­pamentos elimina dúvidas e assegura maior credibilidade às infor­mações. Senão vejamos:

Fitas de vídeo contendo imagens dinâmicas e sonorizadas re­­pre­­sentam provas quase inquestionáveis da autenticidade dos fa­tos. A única alternativa de contra-argumentação é a de reedição da seqüência dos frames (que envolve cortes quase im­per­ceptíveis e superposição ou eliminação de palavras), muito com­plicado em termos técnicos, porque envolve a utilização de instrumental de última geração, caríssimo, e não escapa à aná­lise efetuada nos laboratórios dos peritos.

O jornalista Ricardo Boechat publicou, em sua coluna no jor­nal O Globo (na edição de 29 ago.1998, p. 18)4 , notícia segun­do a qual um dossiê composto de tapes e fitas gravadas – e rechea­das de denúncias de corrupção praticadas por um dos candidatos ao Go­verno do Estado – fora oferecido ao seu principal adversário po­lí­tico por US$ 1 milhão. Acrescenta o colunista que especialis­tas do Serviço de Informações do Exército teriam examina­do o ma­­te­­­rial e comprovaram sua autenticidade.

Boechat revela, por fim, que o candidato a governador que sai­ria beneficiado com a divulgação daquele dossiê recusou a ofer­ta e a repassou a políticos do PSDB em Brasília, que também a rejei­­taram.

Supondo que, às vésperas das eleições, a íntegra desse dossiê fos­se parar nas mãos de um jornalista e em seguida publicado ou difundido via rádio/tv, é possível calcular o estrago que acar­retaria nas pretensões do candidato.

Outro equipamento bastante útil – e indispensável em certas si­tua­ções – é a minicâmera fotográfica. Facilmente encontrável no mercado internacional (principalmente nos Estados Unidos, Rei­no Unido, Alemanha), assim como os filmes, é pouco maior do que um isqueiro e pode ser escondida em qualquer maço de cigar­ros.

Tais minicâmeras são excelentes para a reprodução de docu­men­tos que, de outra maneira, não poderiam ser copiados (or­dens secretas, memorandos recomendando ações políticas, solici­ta­ções de caráter pessoal). De fácil manuseio para os iniciados na arte da fotografia, exigem do profissional de Imprensa tão-so­men­te discri­ção no que diz respeito à escolha do lugar onde se­rão utilizadas (bem como do laboratório onde o filme será reve­lado).

Minicâmeras de televisão e microfones especiais (escondidos em pochetes, sacolas de supermercado etc), além de gravadores de bol­so, podem ser igualmente utilizados, mas – principalmente no caso desses dois últimos – recomenda-se cautela devido à hipó­tese de ruídos provocados pela estática. Além do vexame – que po­de se estender do silêncio eventual por parte do entrevistado a um “convite” não muito gentil dos agentes de segurança para reti­­rar-se dali –, corre o risco de levar uns tapas e ter o equipa­mento apreendido/destruído.

Freelance

Um exemplo extraído da ficção:

Peter Müller, jovem jornalista freelance da antiga República Fe­de­ral da Alemanha, recebe de um amigo policial (em caráter reser­vado) o diário de um ex-prisioneiro dos campos de concen­tração e, impressionado com o que lê, firma um acordo editorial com o publisher da revista para a qual contribui com grandes re­por­tagens.

Daí, por intermédio de uma série de artifícios, infiltra-se na Odes­sa5, localiza e identifica o criminoso nazista Edouard Rosch­mann, codinome Vulcan (por uma trágica fatalidade assas­sino do pai do jornalista – um corajoso e íntegro oficial da Wehr­macht, morto durante a retirada alemã do enclave de Riga).

Para consumar seus objetivos, ele é auxiliado por um peque­no grupo de especialistas judeus empenhados na caçada aos cri­mi­­­nosos de guerra. Submetido a um breve (e rígido) treina­mento mi­­nis­trado por um oficial da SS não simpatizante das atro­cidades praticadas pelos nazistas, Peter Müller aprende a iden­tificar as patentes, medalhas e outros distintivos da orga­nização; é entro­nizado no universo mitológico das tropas de as­salto de Hitler e de­cora os hinos e canções preferidas pelos com­ba­tentes.

E mais: assume a identidade de um ex-cabo das SS morto de cân­cer em um hospital da República Federal da Alemanha que te­ria participado do pelotão de fuzilamento, em 1945 – nos estertores do Terceiro Reich – do almirante Wilhelm Canaris (ex-chefe do Abwehr, o serviço de espionagem, acusado de alta traição). Para reforçar o disfarce, Peter Müller recebe maquiagem que o enve­lhece vinte anos.

Tudo muito bonito… na história! Na vida real o repórter teria sido assassinado durante a aventura.

Poucos repórteres teriam suficiente sorte a sangue-frio para enfren­tar uma empreitada dessa natureza. Mas existem outras situações in­te­res­santíssimas (e não exclusivas do jornalista freelance) que mere­cem registro. Tim Lopes trabalhou durante algum tempo co­mo simples operário durante a construção do Metrô do Rio de Janeiro, registrando o dia-a-dia dos trabalhadores, suas dificuldades e – raros – momentos de lazer. O texto, bastante elogiado na é­poca, foi publicado no jornal alternativo O Repórter.

O veterano Ely Moreira, um dos ases do jornalismo policial, foi ain­da mais longe ao se infiltrar no mercado dos atravessadores de to­mate no Rio de Janeiro, num período em que aquele produ­to escasseava nos supermercados e feiras-livres e era vendido a pre­ços elevados. Para “abrir o seu próprio negócio”, Ely rece­beu uma quantia em dinheiro do jornal O Globo e atuou com ta­­­ma­nha habilidade que, três meses depois – tempo de duração da repor­tagem, em que trabalhou inclusive como um bem- hu­­mo­­rado feirante –, não somente restituiu a quantia que lhe fo­­ra confiada, como obteve pequeno lucro sobre o total apurado.

Outro exemplo clássico de investigação jornalística foi levado a ter­mo por Luiz Carlos Sarmento e sua mulher, Aleina. Eles pas­saram alguns dias internados como pacientes psiquiátricos do Hospital Pinel, em Botafogo (Zona Sul do Rio de Janeiro), pa­ra comprovar denúncias segundo as quais dissidentes do regi­me militar ali estariam sendo submetidos a maus-tratos.

Riscos e Precauções

Perigos existem em toda e qualquer profissão, mesmo as mais prosaicas. Assim como um jardineiro pode sofrer um ar­ranhão num espinho de roseira ou cortar-se com a tesoura de po­da, os repórteres investigativos estão sujeitos a contratempos que podem se estender do grampeamento telefônico ao rece­bimento de cartas amea­ça­doras; de acidentes de trânsito mal ex­pli­cados a mortes por em­preitada, caso prejudique os interesses de indivíduos ou grupos envolvidos em atividades ilícitas.

Ninguém é à prova de balas, consubstancia o ditado popular, mo­tivo pelo qual o repórter investigativo deverá, sempre que pos­­­sível, recorrer a táticas que lhe assegurem a autopreservação. A pro­pósito, vale registrar que, num período histórico não mui­to dis­tante dos dias atuais, o cadáver de um profissional de Im­pren­sa custa­va muito caro e, quando aconteciam situações inde­se­jadas (aten­tados ou assassinatos), as corporações jornalísticas – co-solidariamente – não economizavam esforços para iden­ti­ficar os res­ponsáveis, não importando o status social ou a função exer­cida – e apontá-los às autoridades.

Hoje, porém, a situação se inverteu e muito dificilmente – pe­lo que se pode observar – os jornais e/ou emissoras de rádio e te­levisão manifestariam o mesmo empenho, salvo na hipótese de a pessoa em questão ocupar cadeira cativa no Olimpo do jor­­­na­lismo brasileiro.

As contramedidas destinadas a evitar ou dificultar retaliações não constituem segredos de Estado. São precauções relativamente sim­ples, de comprovada eficácia e extensivas à maioria das situa­ções. Algumas se assemelham às práticas adotadas pelos agentes dos serviços de informações.

Ei-las, resumidamente:

1. Jamais deixar que outros colegas da Redação, vizinhos ou “co­nhe­cidos” saibam o que (exatamente) está fazendo. As chan­ces de “vazamento” são infinitas. Em se tratando de jorna­lista freelance, é recomendável a elaboração de um termo de res­pon­sabilidade assi­nado pelo publisher (ou, se for o caso, editor-exe­cuti­vo), garan­tindo sigilo absoluto sobre a investigação jorna­lís­tica.

2. Dispor – em casa – de alarmes sonoros isnstalados em locais es­tra­tégicos e também de instrumental eletrônico que permita identificar a ori­­gem das ligações telefônicas (aparelhos do tipo Bina podem ser encontrados e adquiridos facilmente no mercado). Basta não alar­dear aos colegas e vizinhos.

3. À medida que evolua o trabalho de apuração, vale tirar u­ma (ou mais) cópia(s) da documentação obtida e entregá-la(s), bem como um relatório criteriosamente atualizado, a uma pessoa de confiança6 recomendando que o material seja enca­­minhado ao jornal X*** e utilizado na hipótese de algo de gra­ve lhe acontecer.

4. Conversar o mínimo possível ao telefone. Grampe­amen­tos podem ser feitos a todo instante e não-somente por peri­tos dos órgãos de informações. Ligações destinadas à marcação de apon­tamentos (ou troca de idéias) devem ser efetuadas preferen­cialmente por intermédio dos telefones públicos (não muito pró­xi­mos à sua casa ou birô).

5. O sigilo quanto à identidade das fontes deve ser total. Até por­que os repórteres costumam ser previamente checados quan­to à qualidade e a credibilidade do trabalho que desenvolvem (e, muito especialmente, no que diz respeito à resistência às pres­sões de natureza física, econômica e psicológica).

6. Documentos, filmes, fitas de vídeo, de áudio etc. devem ser guar­dados em locais seguros, de modo a obstaculizar ações pra­ti­­cadas pelas equipes especializadas em infiltração. Embora es­sas pessoas sejam treinadas para descobrir objetos nos lugares mais insólitos, vale a pena tentar ludibriá-las.

7. Dispor de dinheiro suficiente para cobrir as despesas pes­soais na hipótese de uma viagem rápida, e, se for o caso, de uma tes­te­munha-chave. Cartões de cré­dito serão sempre úteis, mas o melhor mesmo é trabalhar com dinheiro vivo. A explicação: os cartões podem ser facilmen­te rastreados no caso das consultas online.

8. Admitindo que o repórter seja informado previamente so­bre a data da publicação do texto (ou transmissão do progra­ma), é acon­selhável afastar-se alguns dias da área de turbulência.

9. O anonimato é a grande vantagem do repórter inves­tigativo, comparativamente à rotina dos demais profissionais de Imprensa nas Redações. Quanto menos pessoas souberem co­mo ele é (qual a sua aparência), tanto melhor7.

10. Contatos no submundo do crime, da espionagem, do mer­cado negro das armas e dos soldados da fortuna podem ser ú­teis eventualmente, mas todo cuidado é pouco em se tratando de pes­soas assim. O ideal é saber como e onde localizá-las. Jamais con­vidá-las, por exemplo, a uma festa ou jantar na sua casa.

11. Nunca esquecer que a glória do jornalista é efêmera e du­ra exatamente até o furo proporcionado pela edição seguinte ou empresa concorrente, daí a importância de o repórter se esme­­rar sem­pre na apuração e elaboração do texto, assegurando maior pe­re­nidade ao seu próprio trabalho.

12. A autenticidade de uma assinatura ou identificação das im­pressões digitais – em se tratando de pessoa notoriamente conhe­cida – pode ser comprovada por intermédio de consulta a es­­pe­cialistas com fé pública ou que tenham exercido funções de con­­fiança nos órgãos técnicos das corporações policiais8. Trata-se, esta verificação, de um recurso legítimo.

13. Em hipótese alguma confiar na sorte. O dia-a-dia é uma cai­­xa de surpresas, razão pela qual a prudência é sempre o melhor pre­­ven­tivo. Em se tratando de reportagens investigativas de lon­ga duração, a sabedoria está na perspectiva do regresso incólume. Di­­fí­­cil não é ultrapassar a cortina do nevoeiro e os portões fecha­dos de um palácio, mas retornar ao ponto de partida com os próprios pés.

14. Jornalista que se presume sensato não deve fechar os o­lhos para os avisos que, vez por outra, aparecem durante a apu­­ração. Se o seu feeling detectar algum perigo dissimulado, va­le ponderar sobre a conveniência de prosseguir utilizando aque­­le método… ou parar e refletir um pouco mais sobre o as­sunto.

15. Havendo dúvidas quanto à credibilidade da fonte (seja em razão dos antecedentes daquela pessoa [passado criminal ou trapa­lha­das políticas], ou devido à natureza polêmica do fato), acon­selha-se:

a) Rechecar as informações, preferencialmente junto a fontes subsi­diárias (textos publicados em jornais/revistas, pare­ceres téc­ni­­cos elaborados – a pedido – por especialistas etc);

b) Caso persistam, é conveniente que o assunto seja mantido em suspenso até a confirmação das denúncias por outras pes­soas.

16. Anúncios classificados podem ser usados como recurso tático pa­ra agendar encontros ou transmitir informações em cará­ter de emergência.

17. Desaconselha-se a utilização de veículo próprio (e, em al­guns casos, da empresa jornalística para a qual estiver prestan­do serviços) durante os trabalhos de campo. Inexistindo outra so­lu­ção, a prudência recomenda que o carro seja examinado aten­ta e diaria­mente (verificar sistema de freios, olhar bem sob os bancos e o ca­pô etc) como precaução contra sabotagens.

18. Nomes, telefones importantes e endereços confiados exclu­sivamente ao repórter devem ser guardados na memória ou – excepcionalmente – grafados de modo que a compreensão ime­di­ata seja dificultada.

19. Escolher criteriosamente o hotel onde ficará hospedado (checar a existência de saí­das de emergência etc.) bem como bares e restaurantes (a pre­fe­­rência deve recair sobre aqueles mais movi­mentados).

20. Cuidados adicionais devem ser adotados quanto à escolha dos locais de encontro para troca de informações. Prefe­ren­cial­­men­te áreas neutras ou que, por sua própria natureza, im­peçam ou dificultem a utilização de equipamentos especiais (metrô, trens ur­banos etc.).

Fontes

Tudo aquilo que, durante a coleta de dados (e/ou mesmo a­pós a publicação/difusão pela mídia eletrônica), contribua para escla­recer uma situação confusa ou polêmica será sempre bem-vin­do. Entretanto, o jornalista deverá atentar – permanentemente – pa­ra as possibilidades da mentira ou desinformação.

Não faz muito tempo o publisher de uma conceituada revista ale­mã foi ludibriado por um indivíduo que, fazendo-se passar por pesquisador dos temas ligados ao Terceiro Reich, teria desco­berto uma série de diários supostamente redigidos por Adolf Hitler.

Sem esperar pela realização de exames mais acurados e con­fiando na perspectiva de sucesso nas vendas, a direção da revista pa­gou o preço estipulado pelo “descobridor dos diários” e publi­cou parte do material em algumas edições. O fato é que, pouco de­pois, peritos em grafologia comprovaram que se tratava de uma fraude. Os editores, por sua vez, tiveram que assumir uma das maiores “barrigas” (notícias sem fundamento) difundidas pela im­pren­sa alemã, o que comprometeu a carreira profissional de mui­ta gente.

O jornalismo investigativo – quando os trabalhos de campo não decorrem tão-somente da observação pessoal – requer a utili­zação de fontes localizadas em patamares acima do bem e do mal: pessoas que exerçam postos-chave nos órgãos públicos, profis­sionais liberais de consolidada reputação etc.

Contudo, não somente os depoimentos desses homens/mulheres respaldam a apuração. Livros, pareceres técnicos, entre­vistas e artigos publicados, relatórios confidenciais, boletins de ser­viço, promoções do Ministério Público, sentenças judiciais etc, compõem e fundamentam o noticiário.

Notas

* Doutor em Comunicação e Cultura, jornalista e professor-adjunto do quadro permanente da Escola de Comunicação da UFRJ.

1. PASSOS, José Meirelles. CNN se desculpa por reportagem sobre o Vietnam. O Globo, 3 jul. 1998.

2. A familiaridade com os equipamentos é essencial ao exercício da pro­fissão. Durante uma conversa entre o Autor e um expe­rimentado Repórter Assistente de Editor (categoria funcional não mais adotada) ao tempo em que ambos trabalhavam no Globo, em meados dos anos setenta, este último enfatizava a importância de os jovens repórteres saberem operar um aparelho de telex. En­tretanto, não demorou muito, os computadores substituíram as má­quinas de escrever e os teletipos. A assertiva, no entanto, con­tinua verdadeira.

3. Há que se observar, em se tratando de investigação jornalística, uma peculiaridade _  esta, sim, extensiva aos profissionais que atuam nes­te campo: a discrição. Ao contrário do que se observa roti­neiramente nos jornais e emissoras de rádio e televisão, com os re­pór­teres comentando (e, pior do que isso, alardeando) os even­tuais êxitos em situações de importância menor (entrevistar um as­saltante foragido, acompanhar uma blitz do Batalhão de Ope­rações Especiais da PM na favela H*** etc), o jornalista experiente pre­fere trabalhar em silêncio, evitando que os demais colegas conhe­çam seus passos. Além disso, muito raramente se deixa foto­grafar.

4. A íntegra da nota publicada sob o título O dossiê Garotinho: “É obra de um empreiteiro de Campos (norte do RJ) o dossiê com su­pos­tas provas de corrupção envolvendo o ex-prefeito daquela cida­de e atual candidato do PDT ao Governo do Rio, Anthony Garo­tinho.

· · ·

Com cassetes e vídeos, o material foi fornecido ao pefelista Cesar Ma­ia, em maio, por US$ 1 milhão. Através do assessor João Albu­querque, Cesar pediu ao “coronel Arruda”, ligado ao Serviço de In­for­mações do Exército, para periciar as fitas. Eram autênticas, mas, mesmo assim, ele não fechou o negócio. Preferiu repassar a ofer­ta a dirigentes da campanha presidencial do PSDB em Brasília. Nin­guém aceitou.

· · ·

O dossiê reúne conversas gravadas sobre contas numeradas, propinas e frau­des fiscais. É nitroglicerina pura”.

5. Orga­nização criada durante o colapso militar do Terceiro Reich, para prestar ajuda aos remanescentes da SS envolvidos com as atro­­cidades praticadas contra judeus, ciganos e outras minorias no Leste Euro­peu.

6. Embora não de todo aplicável às situações acima, recorde-se o im­­pacto ( e as conseqüências ) provocado na opinião pública pelo rela­­tó­rio que o jornalista Alexandre Von Baumgartten (propri­etário da revista O Cruzeiro) elaborou, no início dos anos oitenta, no qual denunciava uma articulação envolvendo militares de alta pa­ten­te e exercendo funções executivas na Comunidade de Infor­mações, destinada a assassiná-lo – o que ocorreu logo depois.

7. O autor destas linhas evitou ser fotografado por mais de dez anos.

8. O veterano repórter Octávio Ribeiro, o Pena Branca, conseguiu loca­lizar e entrevistar – “em algum lugar” da fronteira oeste do Bra­sil – o ex-cabo da Marinha de Guerra José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, responsável pela dizimação de uma parcela con­si­derável da esquerda brasileira engajada nas operações de gue­r­rilha durante os chamados Anos de Chumbo (1968-1972). No longo depoi­mento prestado, ele não somente admitiu que fora pre­so e, em segui­da, cooptado pelo delegado Sergio Paranhos Fleury e sua equipe, co­mo atribuiu a si próprio o mérito de haver contri­buído para o fim da luta armada. Octávio Ribeiro, por sua vez, solicitou – e obte­ve – da direção do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) da Polícia Civil do Rio de Janeiro, exa­me papiloscópico da con­tra­prova apresentada pelo próprio Anselmo: um bilhete assinado de pró­prio punho com a aposição das impressões digitais.

 

 

Anúncios

Sobre ovigillante - blog (da professora) Virgínia Salomão

Virgínia Salomão, mestre em Comunicação e Mercado (Casper Libero), doutora em Comunicação (Umesp ), jornalista, advogada, aprendiz de escritora.
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s